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Dr. Edson Kenji Kondo e o ensino brasileiro na área de Administração

Líder em pesquisa científica, Professor Dr. Edson Kondo fala sobre a performance do Ensino Superior no País.

 

Líder em pesquisa científica, Professor Dr. Edson Kondo fala sobre a performance do Ensino Superior no País.

 

Presidente da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração (Angrad), Edson Kenji Kondo é um dos principais nomes relacionados à pesquisa científica no Brasil. Doutor e Mestre em Políticas Públicas pela John F. Kennedy School of Government da Universidade de Harvard e Engenheiro de Produção pela Universidade de São Paulo (USP), ele atuou anteriormente como Membro do Conselho Deliberativo e Coordenador de Cooperação Internacional Bilateral do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), liderando ações diretamente ligadas ao setor educacional do País.

Com uma trajetória acadêmica marcada por parcerias globais – Kondo foi professor titular da Universidade de Tsukuba, no Japão, Assistente Sênior do Setor de Ciência e Tecnologia da Embaixada do Brasil em Tóquio e chairman do Programa de Pós-Doutorado do Instituto de Estudos Avançados da Universidade das Nações Unidas –, o pesquisador atualmente está por trás do fortalecimento do ensino na área de Administração em instituições brasileiras de Ensino Superior.

Às vésperas do 32º ENANGRAD (Encontro Nacional de Cursos de Graduação em Administração), evento que Edson realiza por meio da Angrad e em parceria com a Universidade de Fortaleza, instituição de ensino da Fundação Edson Queiroz, nos dias 10 a 15 de novembro, ele conversa com o Entrevista Nota 10 sobre as transformações vividas pelo setor de educação pós-pandemia e na era da informação. Leia na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 – O senhor assumiu a presidência da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração (Angrad) pouco antes da pandemia de Covid-19. Considerando uma visão geral do estudo dessa área no país, como a crise sanitária afetou diretamente as pesquisas em Administração? A pandemia trouxe mais interesse por determinados temas de pesquisa nesta área?

Edson Kondo – O nosso acompanhamento do impacto da pandemia entre os colegas que cuidam dos cursos de administração mostra que houve uma reação relativamente rápida em realizar ajustes nos temas de pesquisa. Alguns exemplos de novas frentes detectadas são as de gestão dos sistemas de saúde, a sobrecarga ocasionada nos sistemas de saúde pela rápida disseminação do vírus, o impacto no comércio, os ajustes ocorridos na gestão de pessoas, dentre outros. Portanto, respondendo também à sua segunda pergunta, a pandemia trouxe mais interesse, até por necessidade, em temas de administração diretamente impactados pela Covid-19.

Entrevista Nota 10 – Na última década, em especial durante a pandemia, ocorreu um crescimento exponencial no interesse por empreendedorismo digital, com vários pequenos negócios atuando somente por meio de aplicativos ou redes sociais. Como os cursos de Administração vêm se atualizando para contemplar essa demanda? Houve incorporação de debates sobre os novos tipos de empresas da era digital?

Edson Kondo – Essa é uma pergunta difícil, pois a velocidade de mudança do projeto pedagógico de um curso não ocorre na mesma velocidade de [lançamento ou atualização de] uma loja de roupas, de celulares, ou de alimentos. Nessas últimas, à medida que a demanda por determinado produto aumenta, o estabelecimento passa a oferecer mais unidades desse produto rapidamente. A mudança de um projeto pedagógico exige várias reuniões dos Núcleos Docentes Estruturantes (NDE) que, após debates e revisões, apresenta a proposta para aprovação do colegiado de professores. Dependendo da estrutura da instituição, isso ainda pode passar por outras instâncias, como o Conselho de Ensino e Pesquisa e a Pró-Reitoria de Graduação. Para cada uma dessas reuniões existem calendários anuais e as propostas precisam entrar na pauta.

Assim, os cursos reagem e buscam um ajuste, mas enquanto a burocracia exige mais tempo, professores com maior familiaridade com empreendedorismo tomam a iniciativa de apoiar grupos de alunos reunidos em ligas, grupos de interesse ou empresas juniores para explorar essas novas necessidades e oportunidades.

Quanto à sua segunda pergunta, o debate sobre os novos tipos de empresas da era digital já vinha ocorrendo há muito tempo. A questão das startups, fintechs, plataformas de comércio eletrônico já vinham rapidamente destruindo e tomando o lugar de grandes empresas varejistas sustentadas por lojas físicas. A Borders, uma das gigantes do ramo de livrarias, fechou suas portas há exatamente uma década, em setembro de 2011.

Há que se tomar cuidado com análises que tomam como base a opinião popular. Uma das principais transformações ocorridas nestas últimas três décadas foi a substituição das atividades de mercado que eram prioritariamente físicas por transações digitais. Isso não exigiu grande capacidade inovadora. Bastava entender de programação ou contratar algum bom programador e criar plataformas para substituir o que era feito fisicamente. O principal representante desse método foi a Amazon, criada em 1994 e que, em menos de três décadas, dominou o comércio eletrônico mundial.

Esse modelo está próximo da exaustão e o domínio do mercado a partir de agora exigirá capacidade de programação, conhecimentos de engenharia, criatividade e capacidade de pensamento lateral, habilidade de integrar times com talentos diversos e a capacidade de se antecipar às necessidades futuras da sociedade. Embora controversa, uma das pessoas que vem impactando o mundo com novos conceitos e realizações consideradas impossíveis é Elon Musk. Essa nova era liderada por pessoas como Elon Musk, Jeff Bezos ou Mark Zuckerberg traz desafios significativos quando refletimos sobre o tipo de sociedade que estamos construindo. Para ilustrar, apenas uma das várias empresas tecnológicas de Elon Musk, a Tesla, vale mais que o PIB de 176 países. Esse é um poder que se concentra na mão de poucos a um ritmo jamais visto na história e desafia radicalmente conceitos basilares da sociedade como a democracia e a equidade.

Entrevista Nota 10 – Graduado em Engenharia de Produção pela Universidade de São Paulo (USP) e Doutor em Políticas Públicas pela Universidade de Harvard, o senhor conta com uma larga experiência internacional enquanto pesquisador, tendo assumido anteriormente posições como a de professor titular da Universidade Tsukuba, no Japão, e presidente do programa de pós-doutorado da Universidade das Nações Unidas. Em sua concepção, quais as principais diferenças entre o sistema de Ensino Superior praticado no exterior e o brasileiro?

Edson Kondo – Essa é outra pergunta difícil. De um lado, sabemos que a profissão de professor ou professora não é suficientemente valorizada no Brasil, diferentemente de países como o Japão. O Brasil tem tido uma baixa performance em testes comparativos internacionais como o PISA, que testa estudantes de 15 anos. Dos 77 países participantes em 2018, o Brasil está em 57º lugar.

No Ensino Superior, a métrica mais próxima para comparar a performance de países são os indicadores bibliométricos, ou seja, a produção acadêmica dos pesquisadores. Utilizando a base da SJCR, uma das principais bases de produção acadêmica do mundo, o Brasil está em 14º lugar dentre 240 países listados. Considerando que o Brasil possui a sexta maior população do mundo, esperaríamos que o Brasil estivesse próximo da sexta classificação. Quando analisamos o impacto dos trabalhos, representado pelo número de citações por documento, o Brasil está em 157º lugar. Isto é, os documentos produzidos por cidadãos de 156 países são, na média, mais citados que os produzidos pelos brasileiros.

Os sistemas educacionais são constituídos por dezenas de fatores que afetam a performance dos estudantes. Há fatores de equidade que podem e precisam ser melhorados. No Japão, como nos EUA, não há universidade gratuita. Nas universidades públicas, a mensalidade é bem menor, mas ninguém é isento desse pagamento. No Brasil, muitos estudantes bem preparados, com condições de pagar [por ensino particular], estudam de graça em universidades públicas muito bem estruturadas. Este é um ponto que dificilmente irá mudar pois o debate é dominado por posições passionais e motivações políticas. Há muitos outros pontos a serem debatidos, mas seria preciso um outro espaço com mais tempo.

Entrevista Nota 10 – Sua formação pessoal é marcada pela interdisciplinaridade. Como o jovem graduado em administração pode enxergar em outros setores uma oportunidade de crescimento, tanto no âmbito profissional quanto no científico?

Edson Kondo – A formação em administração é das mais integradoras. Isto é, ela tem o papel de administrar o trabalho de pessoas de várias especialidades de maneira que o resultado coletivo seja bem maior que a soma das partes. Para o graduado em administração, as oportunidades de atuar com interdisciplinaridade se apresentam a todo o momento e devem ser vistas sempre com humildade. A atuação efetiva do administrador depende muito da sua capacidade de permitir que os especialistas de cada área tenham o respeito e a confiança do administrador para que possam brilhar nas suas próprias funções. Administrar hoje é menos controlar e muito mais focar na busca de ganhos sistêmicos da organização.

Entrevista Nota 10 – Considerando sua posição anterior como coordenador de Cooperação Internacional Bilateral do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), como é possível definir o desempenho da pesquisa brasileira nos últimos anos? Existe um interesse latente pela produção científica de nosso País?

Edson Kondo – Conforme já mencionado anteriormente, o desenvolvimento da pesquisa no Brasil continua sendo um desafio. Tanto o CNPq como a CAPES têm dado uma contribuição gigantesca à ciência brasileira. Um dos fenômenos interessantes é o grande número de brasileiros trabalhando no exterior em posições de destaque. Embora seja difícil capturar isso com indicadores específicos, é bem possível que a ampla rede de brasileiros empregados no exterior esteja beneficiando indiretamente o avanço da ciência e tecnologia no Brasil. Além de ter criado essa vasta rede de cooperação internacional, o CNPq e a CAPES realizam um dos trabalhos mais fundamentais para consolidar as perspectivas futuras do Brasil e precisam ser preservadas, valorizadas e fortalecidas.

Entrevista Nota 10 – De que forma o aumento no número de graduados e a melhoria da formação acadêmica podem contribuir para o desenvolvimento do Brasil e o alcance de melhores resultados acadêmicos em relação a outros países?

Edson Kondo – Uma boa formação educacional é acima de tudo um direito fundamental de todos os brasileiros e brasileiras. Quanto maior for a proporção de pessoas educadas, maior será o número de pessoas capazes de debater e trabalhar pelo futuro do Brasil. Há que buscar um equilíbrio técnico e político no desenho do sistema educacional brasileiro. De um lado há o direito de todos a uma boa educação. De outro, há a necessidade de o País tirar proveito de suas vantagens competitivas para poder produzir mais riquezas. Esse segundo aspecto exige que o País reflita sob o mix de cursos e especialidades oferecidas pelas universidades públicas, que são o principal veículo dos investimentos nacionais em infraestrutura científica.

Entrevista Nota 10 – No início de novembro, o 32º ENANGRAD (Encontro Nacional de Cursos de Graduação em Administração), realizado em parceria com a Universidade de Fortaleza, reunirá professores e estudantes de todo o país para discutir interesses recentes em torno de pesquisas em Administração. Qual a principal recompensa para a Angrad em realizar-se um evento desse porte? O que podemos esperar das discussões desse ano?

Edson Kondo – A principal novidade na área de administração é a homologação, pelo Ministro da Educação, das novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs). As DCNs foram amplamente discutidas no âmbito da ANGRAD, que ouviu e recebeu comentários de mais de uma centena de coordenadores, docentes e estudantes de cursos de administração no correr de dois anos de debates. Como resultado do processo de escuta, a ANGRAD, em parceria com o CFA, defendeu com êxito que as novas DCNs deveriam permitir espaço de liberdade suficiente aos cursos de administração para que desenhassem projetos pedagógicos capazes de ter impacto no mundo dominado por IA, plataformas digitais, atuação em redes e novos modelos de negócios.

O ENANGRAD é o principal evento organizado pela ANGRAD e é o momento de levarmos a todos os associados e parceiros o que há de mais novo em tendências no ensino da administração e nas pesquisas sendo realizadas por estudantes e docentes. Neste ano, teremos a presença de grandes empresários debatendo os rumos da administração no terceiro milênio. O debate será bastante prático, de modo que os participantes tenham a oportunidade de se instrumentalizar para os desafios futuros na área da administração. Aguardamos ansiosamente a presença de todos vocês!

 

FONTE: G1

As manifestações expressas por integrantes dos quadros da Fundação Getulio Vargas, nas quais constem a sua identificação como tais, em artigos e entrevistas publicados nos meios de comunicação em geral, representam exclusivamente as opiniões dos seus autores e não, necessariamente, a posição institucional da FGV. Portaria FGV Nº19 / 2018.

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